Butantan
capacita agentes para atuar em ataques de escorpiões
quinta-feira, 29 janeiro, 2009 18:44
Os bairros do Ipiranga
e Moinho Velho, na capital paulista, registraram, há
cinco anos, várias ocorrências de escorpiões.
Lapa, Mooca e Cidade Tiradentes também já
detectaram o problema em outras ocasiões. No começo
deste ano, a vítima foi uma creche em Pirapozinho,
a 580 quilômetros da capital. Apesar desses e outros
casos, Paulo Goldoni, biólogo do Instituto Butantan
e especializado em Saúde Pública e Controle
Biológico, explica que a quantidade desses animais
não aumentou nos últimos anos.
O que ocorreu é que “informatizou
a notificação dos casos”, destaca o
profissional. Desde 1988, segundo ele, foram disponibilizadas
ferramentas, como a Internet, que possibilitaram a melhoria
dos dados. “Hoje, pelo último levantamento
que temos, os acidentes com escorpiões ultrapassaram
os relacionados a serpentes”, informa.
Goldoni observa ainda que esses casos em
meio urbano devem-se ao que chama de “incidência
do encontro”. Ou seja, é mais fácil
localizá-los quando são desalojados de seu
habitat – pela expansão imobiliária,
por exemplo. Isso ocorre porque tendem a se dispersar, principalmente
se existe via para isso, como os esgotos, onde se concentram
as baratas, seu principal alimento em meio urbano.
Eliminar focos – Segundo o biólogo,
não existe veneno de efeito comprovado cientificamente
para combater os escorpiões. Muitas empresas vendem
produtos que, na verdade, não eliminam o animal,
apenas o afugentam, ao dificultar sua respiração.
“As pessoas acham que o problema está resolvido,
mas, poucos meses depois, eles reaparecem”.
Na década de 1990, lembra Goldoni,
ocorreram em algumas cidades paulistas registros de ataques
de escorpiões. Os focos estavam em cemitérios
(devido à enorme população de baratas)
e ao longo da rede ferroviária (por se esconderem
nos dormentes dos trilhos). Com a aplicação
de veneno no local, os animais haviam-se espalhado para
as casas vizinhas.
Ao encontrar um escorpião num determinado
local ou dependência, uma das primeiras medidas é
identificar o que há próximo (imóvel
abandonado, terreno baldio, zona rural, área de mata).
Pelo menos 85% dos atendimentos no Instituto Butantan se
referem a ocorrências próximas a terrenos baldios
ou galpões abandonados por empresas, esclarece o
biólogo.
Ao se deparar com escorpião perto
de áreas habitadas, outra providência é,
se possível, capturá-lo e encaminhá-lo
ao Butantan para identificação (de espécie,
periculosidade, entre outras). Em residências, a medida
mais eficaz é vedar ralos e janelas com tela verde
utilizada contra mosquitos, e retirar entulhos.
Com a identificação elaborada
pelo Butantan, o interessado pode acionar o Centro de Controle
de Zoonoses para providências em relação
ao local de proliferação do animal. Ou seja,
é preciso eliminar os focos. Em caso de terrenos
baldios, o órgão pode solicitar a limpeza
da área, que tem de ser feita pelo menos a cada dois
meses. Outra dica é efetuar o controle químico
de baratas em caixas de gordura e de esgoto, pois esses
insetos atraem escorpiões.
Ao manipular entulhos ou materiais dispostos
em ambientes suspeitos, o ideal é utilizar sapatos
fechados e luvas de raspa de couro (encontradas em casas
de jardinagem), que impedem a entrada do ferrão.
Os escorpiões preferem atacar os dedos das mãos
e pés, conforme revelou pesquisa realizada durante
anos com pacientes do Butantan.
Publicações – A sensação
mais comum após a picada é a dor (às
vezes, muito intensa) no local. Numa frequência menor
ocorrem vômito, sudorese e, nos casos mais graves,
insuficiência cardíaca. Essas manifestações
são mais comuns em crianças e, geralmente,
aparecem nas primeiras três horas após a picada,
podendo levar à morte. Quanto menor a faixa etária,
maior o risco, segundo a médica Ceila Maria Malaque,
do Hospital Vital Brazil, pertencente ao Instituto Butantan.
“Em casa não há muito
que fazer”, observa a doutora. “No máximo,
uma compressa de água morna no local da picada, para
aliviar a dor”. Em seguida, é necessário
procurar o serviço médico mais próximo
com urgência, principalmente quando se tratar de criança.
Se há apenas dor muito forte onde ocorreu a picada,
o melhor é passar anestésico no local. Caso
existam outras manifestações, é indicado
soro, que deve ser administrado logo que apareçam
os sintomas.
As solicitações de providências
em relação a casos de escorpiões devem
ser feitas a um dos três órgãos municipais:
Centro de Vigilância Ambiental, Sanitária ou
de Controle de Zoonoses, de acordo com o número de
habitantes do lugar. O Instituto Butantan, órgão
estadual da Secretaria da Saúde, não interfere
em termos locais. Apenas fornece cursos de capacitação
para os técnicos municipais, além de receber
e classificar animais quanto à periculosidade e produzir
soro. A qualificação se dá mediante
solicitação que as prefeituras fazem ao Centro
de Vigilância Epidemiológica (CVE), instituição
estadual com quem o Butantan mantém parceria. Mais
informações, no site do Butantan.
Para auxiliar na tarefa de treinamento,
há duas publicações em reedição:
uma delas, sob a responsabilidade da Secretaria de Estado
da Saúde, é o Manual de vigilância epidemiológica:
acidentes por animais peçonhentos – identificação,
diganóstico e tratamento, elaborado em 1993, em parceria
com o Instituto Butantan. A obra – com informações
sobre animais venenosos, inclusive escorpiões –
agora terá fotos em cores, entre outras novidades,
além de dispor de versão on-line. A distribuição
se restringirá ao Estado de São Paulo, sendo
os médicos o público-alvo. A outra publicação,
específica sobre o aracnídeo, é reeditada
pelo Ministério da Saúde. O objetivo é
a capacitação de gestores em zoonoses e profissionais
da Saúde (como agentes e técnicos). A distribuição
será para todo o País.
Espécie
reproduz sem auxílio do macho
No Brasil, há cerca de cem espécies
de escorpiões conhecidas, das quais apenas quatro
são consideradas perigosas: Tityus serrulatus (escorpião
amarelo), Tityus bahiensis (marrom), Tityus stigmurus e
Tityus paraensis. A primeira é encontrada do sul
da Bahia ao norte do Rio Grande do Sul, inclusive na região
Centro-Oeste. Sua peculiaridade é a reprodução
por partenogênese (ou seja, as fêmeas se auto-reproduzem,
não sendo necessária a participação
do macho). Em razão dessa característica,
há estudos que apontam a tendência de ultrapassar
em número a marrom, cuja reprodução
envolve macho e fêmea. No Estado de São Paulo,
por exemplo, predominam essas duas espécies. As outras,
perigosas, restringem-se ao Nordeste (Tityus stigmurus)
e Norte do País (Tityus paraensis). O soro produzido
pelo Butantan só é eficaz para as três
primeiras espécies. A instituição tem
projetos para construção de uma base na Amazônia,
o que possibilitará a produção de soros
para diversas espécies de animais peçonhentos
de outras regiões do País. O projeto está
em fase de captação de recursos.
Curiosidades
sobre escorpiões
70% dos acidentes com escorpiões
ocorrem em áreas urbanas
Os escorpiões são errantes (ou seja, caminham).
Podem percorrer, por exemplo, um quarteirão
Conseguem atingir pontos elevados, como o teto de edificações.
O Instituto Butantã já os capturou até
no 19o andar de um edifício
Sapos, corujas, quatis, saguis, seriemas e gambás
são alguns dos predadores naturais dos escorpiões.
Desses, o que vive mais próximo de áreas urbanas
e rurais é o gambá. Galinhas, principalmente
as d’angolas, também agem como predadoras
Os escorpiões têm olhos, mas não enxergam.
Como não têm proteção direta
contra a luz, preferem viver em ambientes escuros e com
melhores condições de temperatura
Mais informações, no site www.butantan.gov.br,
link cursos e material didático
Paulo
Henrique Andrade - Da Agência Imprensa Oficial
Governo do Estado de São Paulo
Sala de Imprensa