Paralamas
do Sucesso - "Hoje"

Se os Paralamas deitassem
na sombra da árvore que eles mesmos ajudaram a fazer
crescer tão bem, seriam descansadas imagens de si,
esmaecidas pela força do tempo. Mas saber-se no tempo
é a virtude dos mestres e uma das condições
primeiras para o frescor de qualquer produção
artística. Tem a ver com sinceridade e integridade.
Assim, e mais uma vez, diante de tantos nomes, diante de tantos
tempos, Bi, Herbert e Barone escolheram pra nos mostrar o
seu Hoje. E é bom ouvir alguém falar de si.
Reconhecer espelhada a própria existência nas
palavras e ritmos de outros. Faz a vida parecer maior, faz
a alma menos sozinha, revela nossa coletividade e dá
sentido quase concreto à arte. Expostos, os três
nos contam muito, mas é Herbert quem, por eles, encadeia
as palavras. Dono de seu pensamento e refém de um coração
gigante, ele mostra-se aqui por inteiro.
"Meu destino/ Não me deixa em paz / De coração
não sei se posso amar / Amei tanto há tanto
tempo atrás / (Mas) sofri, chorei, cansei de soluçar
/ Nem sei se é o fim, mas a luz da vida / Ainda brilha
pra mim (...)".
Chegam baixo e bateria, e o trio se revela, inegavelmente.
São inconfundíveis os três juntos. Pergunto-me,
pois, a dimensão dessa amizade. De tantos anos vividos
e das coisas que a vida traz neste tempo. Daquilo que é
a razão de ser e o prumo de toda banda: a vontade de
estar um com o outro.
Sinto-me pequeno e jovem diante do que vejo e sei que ouço
isso tudo nos meus fones enquanto escrevo. Ouço que
o baixo e a bateria bolem como só quem está
junto. Jogam em favor das canções do outro amigo
na guitarra. Tocam como amigos que são e têm
ao lado outros já tão antigos que ajudam a evocar
um Paralamas, esse sim, mitológico, das tantas músicas
que dançam no inconsciente coletivo brasileiro.
O teclado do Fera e o naipe de sax e trombone do Monteiro
e do Bidú, esses nós já ouvimos de diversas
maneiras porque eles estavam lá, juntos, há
muito. Na percussão do Lyra ecoam as referências
mais recentes. Mas é na liberdade escolhida e exercida
de ser o que são que renovam-se os temas. Em cada história,
a cada sentimento dividido, são eles hoje. São
generosos os artistas que nos convidam a vê-los por
inteiro. Os daqui mostram que juntos são fonte inesgotável
de beleza e sinceridade. Hoje, e sempre, é com eles
que eu vou.
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