segunda-feira, 23 março, 2009 15:27
Meditação
- O "paraíso portátil" ao alcance
de todos
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Monge
Naradananda, discípulo de Paramahansa Yogananda |
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Nessa
entrevista*, o monge Naradananda,
discípulo de Paramahansa Yogananda, explica os benefícios
da meditação para o nosso dia-a-dia. Seu mestre,
Paramahansa Yogananda, autor do livro Autobiografia de um
Iogue – é considerado um dos maiores instrutores
espirituais da atualidade e foi um dos primeiros mestres
da Índia a trazer para o Ocidente as técnicas
milenares da ciência da meditação.
Nascido em 1893, em
Gorakhpur, no norte da Índia, Yogananda passou a
maior parte de sua vida nos Estados Unidos, onde escreveu
extensivamente sobre a arte de viver em harmonia e onde
fundou a Self-Realization Fellowship, que tem a finalidade
de disseminar e preservar a pureza e a exatidão dos
seus ensinamentos para a posteridade. O monge Naradananda
é membro da Ordem Monástica da Self-Realization
Fellowship há mais de 35 anos e esteve recentemente
em visita ao Brasil, dando palestras e iniciação
em Kriya Yoga, uma técnica científica e avançada
de meditação.
Em sua opinião, qual é o motivo para
o crescente interesse pelos ensinamentos de Paramahansa
Yogananda?
Vejam como está
o mundo hoje. Será que as pessoas são felizes?
Estão satisfeitas? Estão seguras? Vejam como
se encontra a economia! Vejam o que está acontecendo
nestes dois últimos meses! Algumas pessoas perderam
todos os seus bens.
Acho que as pessoas
estão, cada vez mais, procurando algo diferente daquilo
que os bens materiais podem lhes oferecer, porque se dão
conta de que essas coisas não são suficientes
para lhes fazer felizes!
Deparamo-nos com muitas
coisas ruins, as absorvemos e elas impressionam nossa mente,
causando bastante tensão. As pessoas não foram
treinadas para lidar com esse tipo de situação.
De um lado, há inteligência, há talento,
mas, por outro, há demasiada pressão para
desenvolver esses talentos. A pessoa se questiona: “Como
posso ser feliz com tanta pressão? Preciso cuidar
da minha família, quero ter uma carreira próspera,
mas há muita pressão ao meu redor!”
Nos séculos passados,
havia mais harmonia, mais calma, maior possibilidade de
convivência com a natureza. Hoje em dia, a tendência
é a de acumular muitas coisas externas para distrair
nossa atenção e tirar nossa calma. Precisamos
de uma “trégua”, precisamos relaxar.
Estamos muito tensos. É por isso que as pessoas procuram
algo que lhes proporcione verdadeira paz, que afaste a tensão,
que possa trazer realização perene. E temos,
para isso, a meditação ao nosso alcance.
Paramahansa Yogananda
previu que isto ocorreria: toda essa preocupação
que estamos vivendo atualmente. Então, por isso,
penso que a Ioga e a meditação oferecem alívio
às coisas que estão ocorrendo.
Qual é o objetivo principal da Self-Realization
Fellowship?
O objetivo principal
da Self-Realization Fellowship, estabelecido pelo nosso
fundador, Paramahansa Yogananda, é disseminar, no
mundo inteiro, os ensinamentos para o aprendizado da meditação.
Só assim poderemos compreender que somos mais do
que este corpo físico, mais do que a mente, que temos
uma centelha divina residindo em nosso corpo, a alma, que
faz com que possamos ter controle sobre o nosso corpo.
O objetivo principal
da meditação é ter a experiência
de Deus. Todos nós podemos descobrir isso se fizermos
o esforço, mesmo neste mundo tão agitado.
Iremos encontrar dentro de nós o amor, a alegria,
a paz, a calma e a segurança. Paramahansa Yogananda
chamou isso de “paraíso portátil”.
As técnicas de meditação que ele nos
ensinou permitem que possamos nos interiorizar e sentir
que somos almas, que somos filhos de Deus e que temos o
direito, como têm os filhos de quaisquer pais, de
receber Dele essa atenção, ou seja, de poder
sentir a presença de Deus aqui e agora.
Paramahansa Yogananda
nos ensinou, no entanto, que a meditação é
metade da batalha e que a outra parte é aprender
a amar a Deus. Ou seja, desenvolver a devoção,
que nos motiva a percebermos que Deus é amor e que
o nosso maior objetivo é o amor. Queremos o amor
e queremos ser amados. Deus é esse amor supremo.
Então, assim que tivermos isso, estaremos plenamente
satisfeitos.
Além das técnicas,
Paramahansa Yogananda nos deu outro método: o do
caminho equilibrado. E como é esse princípio?
Como podemos conduzir nossas vidas em meio a tantas circunstâncias
diferentes? Podemos começar através da alimentação,
do exercício físico e da redução
da tensão. Experimentamos tensão física,
mental, psicológica – muitas coisas que precisam
ser eliminadas. Yogananda nos deixou ensinamentos para nos
ajudar a ser felizes. E é isto que queremos: ser
felizes. Mas queremos ser eternamente felizes. Esta é
a chave. Podemos ter vestígios de felicidade, mas
ela não é permanente.
Precisamos ter o conhecimento
mais profundo de nós mesmos como almas e perceber
que Deus é quem nos dará essa felicidade duradoura
– uma felicidade que ficará conosco não
apenas nesta vida, mas em outras também.
O
que faz com que a Kriya Yoga seja considerada uma técnica
de meditação avançada?
No livro Autobiografia de um Iogue, Paramahansa Yogananda
escreveu um capítulo sobre a Kriya Yoga, que é
a técnica de meditação mais elevada
que ele nos deixou. Essa é uma técnica psicofisiológica,
descoberta na Índia, que lida tanto com a mente quanto
com as correntes de energia. Esse tipo de técnica
é conhecida como pranayama. Prana é a energia
que desempenha as diversas funções vitais
no corpo; yama significa “controle”. A Kriya
Yoga objetiva o controle dessa força vital. É
uma avançada técnica de meditação
que nos permite acelerar a nossa evolução
espiritual.
Paramahansa Yogananda
diz que normalmente levam-se anos para se obter apenas um
pequeno desenvolvimento ou avanço espiritual. Esse
“avanço” se encontra inter-relacionado
à coluna vertebral, onde existem diversos centros
de energia vital que executam diferentes funções
no corpo. Com a Kriya Yoga nós aprendemos a controlar
certas correntes de energia e fazer com que elas circulem
em volta desses centros através de métodos
que têm essa finalidade. Por meio dessa prática,
aprendemos a acalmar naturalmente a nossa respiração,
a reduzir os batimentos cardíacos – o que,
essencialmente, fazemos no sono. Quando dormimos, a energia
retorna à coluna vertebral e ao cérebro, mas
isto é feito inconscientemente. Por que nos sentimos
descansados quando dormimos? Porque, inconscientemente,
entramos em contato com nossa verdadeira natureza. Mas,
também podemos fazer isso conscientemente, pela prática
da Kriya Yoga.
Esse é o objetivo
principal dessa técnica, praticando-a regularmente
e de forma consciente, somos capazes de experimentar mais
a paz e a alegria que sentimos quando dormimos. Quando dormimos
profundamente, sabemos, ao acordar, que tivemos um sono
tranqüilo porque nos sentimos revigorados. Dizemos
que é porque dormimos bem, mas não sabemos
o que aconteceu. Com a meditação, vocês
realizam isso com a consciência do que está
acontecendo.
Como podem a
prática da Ioga e dos ensinamentos da SRF contribuir
para a paz mundial?
A alma, nossa verdadeira
natureza, faz parte de nosso ser, no seu estado natural.
A paz, a calma, a serenidade são o oposto da agitação,
das lutas que estão em conflito com a alma e que
imperam no mundo. Obviamente, há países, religiões
e vários fatores diferentes que contribuem para esses
conflitos. Quando, porém, por meio da meditação
começamos a perceber que existe nas outras pessoas
algo – uma essência – que “se parece
comigo” e quando procuramos saber quem elas realmente
são, entramos em contato com aquele verdadeiro ser
que brilha dentro de cada um de nós. Quando compreendemos
isso, há uma manifestação natural de
paz, de calma e percebemos as pessoas como irmãos
ou irmãs, porque podemos sentir que somos almas como
elas próprias são. Não enxergamos apenas
um país distinto, com suas diferenças sócio-políticas,
ou uma religião em particular, com seus rituais ou
dogmas; podemos ver e aceitar a todos num contexto muito
mais amplo, numa expansão de consciência.
Quando meditamos, isto
realmente acontece. A meditação expande a
consciência humana tornando-a divina. Paramahansa
Yogananda fala disso na Autobiografia de um Iogue. Ele explica
que já estamos na era atômica e fala dessa
energia em particular, de como ela pode ser canalizada de
forma construtiva. A meditação é o
meio de utilizarmos essa energia para o nosso benefício
e para o bem de todos.
Como conheceu
a Self-Realization Fellowship e por que resolveu tornar-se
monge?
Nasci no centro dos
Estados Unidos da América, exatamente no sul de Chicago,
em uma fazenda. Cresci em meio à natureza. Como todos
os jovens, fui à faculdade e me formei. Nos anos
1970, havia um grande interesse pela Ioga. Dei-me conta
que, apesar de ter um diploma de bacharel, não me
sentia totalmente feliz. Tinha uma carreira, queria ter
dinheiro, mas também pensava: “preciso viver”.
Já tinha lido algo sobre a Ioga, quando, ao ler uma
revista, vi um anúncio sobre a Autobiografia de um
Iogue e pensei: “Isto parece interessante.”
Encomendei o livro e três dias depois, já tinha
acabado de ler.
Percebi que na capa
do livro havia uma nota dizendo que era possível
solicitar lições para aprender a meditação.
Parecia como um barco salva-vida. Era aquilo que precisava
e queria. Mas, ao mesmo tempo, sabia que Paramahansa Yogananda
era um monge e tinha lido um pouco sobre a sua ordem monástica.
Podem chamar isto de “impulso” – porém,
havia dentro de mim, um sentimento muito forte, que me dizia
que não poderia realmente ser feliz a menos que fizesse
aquilo 100%; não poderia ser 50%; não poderia
ser 75%. Precisava fazer aquilo 100%. Pode parecer engraçado,
mas quando escrevi à Self-Realization Fellowship
para pedir as lições, disse no segundo parágrafo:
“A propósito, gostaria de ser monge!”
Muito cortesmente, responderam:
“Recomendamos, mas, antes de qualquer coisa, deve
começar a praticar as lições.”
Levou mais ou menos três anos antes de conseguir entrar
no ashram. Mas mantive o desejo. E não me arrependo!
O senhor mora
num ashram? Como é o cotidiano da comunidade?
Moro atualmente em um
ashram que é um dos mais novos da SRF, fundado em
1980, chamado Hidden Valley. Está situado no leste
da Califórnia, perto de San Diego e Encinitas. É
um ashram para homens que desejam experimentar a vida monástica,
sem precisar assumir esse compromisso. É também
um retiro espiritual, onde as pessoas podem vir passar os
finais de semana, ou ficar até por três semanas.
O ashram fica no interior,
longe da cidade, na natureza; é muito sossegado.
Sou muito feliz. Estou de volta aos meus dias na fazenda,
quando era criança.
Como é a rotina diária no ashram?
Um dia típico
no ashram é assim: acordamos aproximadamente às
5:30h da manhã. Realizamos uma meditação
individual e depois uma meditação em grupo.
Após o café da manhã, iniciamos as
tarefas. Como moramos em uma fazenda, há muitas tarefas
típicas de qualquer estabelecimento ligado à
agricultura como, por exemplo, cuidar de árvores,
das plantas, dos jardins, etc. Temos também jardins
para meditação, dos quais cuidamos, eliminando
as ervas daninhas, podando arbustos, plantando flores, etc.
Como dispomos de uma grande área, alguns cuidam também
da manutenção dos edifícios e do conserto
de carros, tratores e ferramentas.
Alguns realizam tarefas
na cozinha. Eu trabalho no escritório, coordenando
as tarefas administrativas deste ashram em particular. Dentro
de nossa rotina monástica, estão incluídos
aconselhamento aos visitantes e residentes, ao ar livre.
Ao meio dia, praticamos uma meditação em grupo
e depois almoçamos. Voltamos às nossas tarefas
até às 16:30h, quando temos um período
de recreação onde jogamos vôlei, praticamos
hatha yoga ou qualquer outra atividade física. O
ashram oferece muito espaço ao ar livre, onde podemos
caminhar, correr e fazer diversas coisas em conexão
com a natureza. No final da tarde, após um jantar
leve, realizamos novamente uma meditação em
grupo, seguido de um período para estudo e meditação
pessoal, antes de nos recolhermos.
Nos finais de semana,
temos serviços de meditação com duração
mais longa. Tudo isso proporciona muito equilíbrio.
Procuramos praticar o silêncio o maior tempo possível
– não apenas silêncio pelo silêncio
em si, mas praticar o silêncio como fazia o místico
católico do século XVII Irmão Lourenço
– isto é, falar com Deus interiormente, praticando
a presença Dele em nossas vidas. Isto nos ajuda muito.
Entrevista exclusiva
fornecida ao Informativo Cultura para a Paz - Omnisciência,
durante a visita monástica da Self-Realization Fellowship
ao Brasil, em outubro de 2008. Pede-se a citação
da fonte para a reprodução dessa entrevista.
Conheça os grupos
de meditação e retiros da
Self-Realization Fellowship no Brasil - Site
oficial
Livros recomendados:
Coleção Paramahamsa
Yogananda, editados pela SRF
Leia a biografia resumida
de Paramahansa
Yogananda
*Publicado
originalmente no informativo Cultura para Paz www.omnisciencia.com.br