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Instituto Eu Quero Viver
quinta-feira, 6 junho, 2013 11:08

Repensar nossas estranhas relações com o trabalho

Charlie Chaplin Film Corporation
Quando eu era parte desse sistema velho e decadente de trabalho eu não conseguia dar conta de mais nada

É sempre a mesma coisa. Basta sair uma notícia sobre algum benefício que querem aprovar em nome do trabalhador registrado e começam a chover os comentários chamando toda a população de vagabundo.

Gente que gosta de dizer que brasileiro não quer trabalhar, que é tudo vida boa, e aí por diante. Engraçado que essas mesmas pessoas são as primeiras a comemorar os feriados e as férias, e são exatamente as mesmas que gostam de dizer que o sonho da vida é ter um negócio próprio, exatamente para não passar pela necessidade do “bater o ponto”.

Desta vez, não foi diferente. A câmara está tentando aprovar uma lei onde os pais têm direito a uma falta por semestre para ir às reuniões escolares dos filhos, sem nenhum tipo de desconto, desde que a presença seja comprovada.

Além disso, também querem autorizar uma falta de até uma semana no caso de cônjuge ou filho dependente doente. A “folga” pode se estender por até 14 dias, porém com desconto dos dias de férias caso aconteça. E o povo? Desceu o verbo na proposta, achando tudo isso um absurdo, e reclamando do dinheiro que vai ter que tirar do bolso, como se essa decisão de algum modo fosse afetar o bolso da massa.

Sim, é bem provável que afete o bolso do empresário, mas que outra alternativa arranjar para nosso sistema precário de trabalho? Novamente, vejo pessoas julgando todo mundo por atitude de poucos. Existe gente safada? Existe. Mas como não sou uma delas, vou me permitir falar à respeito. O empresário vai ter que arcar com isso? Vai. Mas trabalhe minimamente oito horas (todas dentro do período comercial de bancos, escolas, e serviços), e tente resolver qualquer coisa durante a sua semana sem faltar ao trabalho ou à algumas horas dele. É possível?

Sinceramente, se for, me ensine como. Quando eu era parte desse sistema velho e decadente de trabalho, onde a mão de obra é explorada, os plantões são enormes, e o tempo para os outros pilares da vida é extremamente reduzido, eu não conseguia dar conta de mais nada. Ainda bem que hoje consigo trabalhar por sistema home office, onde o escritório permite que eu trabalhe de casa. E o resultado, ao contrário do que muita gente pensa, é muito mais produtivo do que antes.

Consigo não só cuidar das coisas do meu trabalho com a mesma qualidade de antes – afinal, não fosse assim, perderia meu sustento, então é preciso entregar com qualidade e ponto final – como também consigo ajustar minha agenda, fazer as despesas do banco, cuidar das coisas da minha casa e ainda ter mais tempo para mim e para minha família. E tudo isso, sem que meu chege me ache uma incompetente, vagabunda, ineficaz. E se eu já tivesse filhos, certamente, permitiria que eles tomassem conta de outras parcelas do dia também porque a vida não é só trabalhar.

Achei sinceramente um absurdo todos aqueles que chegaram até os comentários da revista de maior circulação do país para chamar essa lei de protetora de vagabundos. Pais de família que não acompanham seus filhos, deixam aí pra sociedade criar, estão gerando nada mais que um bando de marginais, sem educação, ou até pior. E quando acontece, a gente acha um absurdo. Pai de família que não acompanha se o filho está estudando, se está voltando com segurança para casa, se chegou bem, quando sofre alguma tragédia ainda é chamado de irresponsável. E quando morre alguém querido, todo mundo pára e posta frazesinhas tristes sobre como deveria ter largado tudo para dar mais atenção ao ente querido. Isso tudo sem nem entrar no mérito carnaval-feriadão-fim-de-ano que acontece no Brasil. Será mesmo que todo mundo está feliz com esse sistema atual?

O mundo inteiro tem trabalhado de outras formas. Com exceção de países como a China, que muitos fizeram questão de usar como base, que exploram a mão de obra em decorrência do excesso de demanda, em nome de um progresso única e exclusivamente tecnológico e ecônomico, o resto do planeta inteiro tem trabalhado com carga horária menor, sistema de home office, e automaticamente menos responsabilidades também por parte da empresa. É tudo muito simples: em vez de passar dez horas aqui acessando o facebook para comentar na foto da revista, você passa apenas cinco. Faz o seu trabalho bem feito, e vai embora para conseguir viver o resto da sua vida e evoluir como pessoa, o que certamente te fará um melhor profissional também. Em troca disso, as empresas ficam livres de tantos impostos, de tantos deveres, de tantas exigências, porque já que oferece, também se sente no direito de cobrar.

E o resultado? Uma sociedade mais educada, mais engajada com sua política, mais engajada com seus idosos, com suas crianças... Uma sociedade que passeia, viaja, conhece, tem cultura. Muito diferente daqui, onde brigamos por migalhas. Aqui não é interessante defender o povo, porque quanto mais tempo livre, mais espaço para ver o país como ele está, e quem é que quer isso, não é mesmo?

Que fique claro que não acho que as empresas tenham mais é que arcar mesmo com isso. E nem que acredito que todo funcionário é bonzinho. Mas eu gosto de partir do meu pressuposto, e o meu pressuposto é honesto e trabalhador. E também amante, familiar, cultural, diversificado ao máximo, para ser humano. E em decorrência disso, acredito cegamente que tanto empresa quanto funcionário estão brigando pela coisa errada.

Estão alimentando a cadeia que querem que seja alimentada ao invés de se desprenderem das correntes e passarem a construir uma relação muito mais inteligente. Uma relação onde a empresa filtrará muito mais seus idealizadores, seus bons profissionais, seus destaques – já que estes trabalharão muito mais pelo interesse do trabalho do que pela obrigação de estar lá – e o funcionário note que essa liberdade não é festa, mas sim espaço para que ele seja alguém melhor em muitos outros aspectos.Afinal, bom profissional não é necessariamente boa pessoa, mas boa pessoa sempre se dedica a ser bom profissional. E que empresa não quer isso?!

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Dannie Karam tem cinco nomes enormes, mas espalha seus textos com um e meio. Já estudou em dezesseis escolas, morou em quase dez cidades, e já rasgou mais de trezentas poesias. Transita entre oito e oitenta, mas só costuma bater o pé por uma ou duas coisas. Criou com três amigas o Pipoca, Pimenta e Poesia. Vive mergulhada em milhares de folhas amassadas e acha que nasceu pra letras. Odeia esse negócio de números... E aceita assinantes em sua página do facebook

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