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quarta-feira, 28 agosto, 2013 12:15

Médicos cubanos: um mal ou um remédio no Brasil?

 
Elza Fiuza/ABr
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, recebe os profissionais estrangeiros do Mais Médicos que participam do curso de preparação, com aulas sobre saúde pública brasileira e língua portuguesa

Vamos falar sério. Sim, sim. De verdade! Vamos fechar as portas e as janelas e conversar aqui só entre eu e você. Falemos sobre esses argumentos que a gente anda soltando por aí nas redes sociais, a respeito dos médicos cubanos, mas agora pensando.

Façamos análises rasas mesmo, só para ter certeza absoluta que a gente estava mesmo abrindo a boca só para falar um monte de baboseiras, porque nos sentimos doídos sem motivo.

É! Sem motivo. Vamos falar?

Sem motivo porque o Brasil, todo mundo sabe, tem cantinhos quase que inacessíveis. A vida é bem distante dos nossos cinemas, redes de lanchonete, carros passando e até mesmo de eletricidade. Nem estádio de futebol tem, e se não tem estádio de futebol, você imagina quão longe o local é. Esses lugares sempre existiram. Eles não foram povoados esse ano. Eles estão lá talvez até mesmo antes das nossas capitais. E nós? Nós conversamos a respeito da importância deles antes? A gente se lembrou em algum momento que eles estavam lá? Nossos médicos estudaram com todo amor e carinho pensando justamente neles? Sejamos francos, raras exceções, não foi bem por aí.

Aí o nosso governo resolveu que ia fazer um social com Cuba. Não me interessa muito se tem alguma coisa por detrás desta escolha que não seja a capacidade dos médicos cubanos, que ao contrário do Brasil, receberam educação de qualidade desde muito cedo. Deve ter um intuito mequetrefe também aí no meio, mas a análise é mais rasa por enquanto. E não vamos entrar em detalhes do quesito educação, porque aqui no Brasil, geralmente quem é médico é quem pode pagar por isso, então pressupõe-se que eles estejam em nível de igualdade de conhecimento, mesmo os daqui tendo que gastar muito mais por isso.

O que nossos médicos fazem? Em vez de assumirem a postura: “escuta aqui, governo. Quando eu tive que gastar um dinheirão para os meus estudos, fazer plantões loucamente, e me especializar sempre em clínicas particulares porque o SUS é terrível, você não me deu um real. Então já que agora tem que ir lá pros cafundós, mande mesmo os cubanos, porque eu acho que já tá na hora de trabalhar no ar-condicionado, ou minimamente nos postos públicos com macas, já que nem isso muitos deles têm. Ou pelo menos ter a chance de ter equipamentos e instrumentos para exercer meu trabalho.”, eles fizeram o contrário. Sinceramente, quem poderia criticar um médico que usasse desse discurso?

Suponhamos, porém, que entre o quesito amor à profissão. O quesito desafio. O quesito experiência de vida. Suponhamos que, ao invés de usar esse discurso que seria bem verídico, os médicos brasileiros insistissem e dissessem: “ei, mas se o governo vai pagar um salário considerável, eu posso me alimentar, posso ver minha família mensalmente, posso me vestir... Então vou me arriscar.”. Seria um discurso bacana. Então o governo pensou: vamos abrir inscrições. Assim os médicos interessados podem atuar onde quiserem. E o resultado? Sobrou uma centena de cidades que ninguém quis.

Ninguém disse: ei, aqui você não vai entrar. Não, não. Ninguém quis mesmo. E aí se não tem médico brasileiro à disposição para ir pra lá, o que a gente faz? Opção a: deixamos o pessoal lá morrer, afinal, nunca nos preocupamos com isso mesmo... Opção b: falamos aos médicos que ou eles vão ou nós os impediremos de atuar e mataremos eles. Opção c: vamos ver se alguém lá fora não quer vir. O governo foi com a opção c. Tinham outras? Eu não sei. Sei que ele escolheu a C e tá escolhido! E dane-se, sinceramente, o governo. A questão não é a decisão dele. O partido dele. A iniciativa dele. Vamos aqui, entre nós, pensar só um pouquinho nos seres humanos que estão lá nos cantos do país. Será que para eles foi tão ruim?

“Foi! Foi péssimo porque eles não fizeram a prova que eu tenho que fazer e mal falam português.”. Será que ninguém no país inteiro jamais viajou para o exterior e ficou doente? Se você estivesse em qualquer outro lugar do mundo, falariam português com você? Ou para uma viagem de dez dias de férias você vai sair daqui com o grego afiadíssimo? E se você estiver entre a vida e a morte lá fora, vai parar para pegar as referenciais do médico, para saber se são compatíveis com as do Brasil? Ou vai assumir que o corpo é humano no planeta inteiro e dar uma chance para ser salvo? É! O idioma é barreira. Mas eles têm aulas para isso. E eu não sou médica para entender a importância da prova, mas sou paciente, e sei que eu e as pessoas que eu amo, quando precisamos, jamais falamos para vocês, médicos brasileiros: “ei doutor, cadê seu resultado da prova? Espera aí com esse bisturi que eu preciso verificar seu CRM aqui.”. Não. A gente tem que confiar no seu estudo e respeitar o seu trabalho. E ter fé.

Então será que foi mesmo tão ruim assim que eles tenham vindo? Ainda mais quando explodem matérias de médicos que batem ponto e vão embora, ou que dizem que não tem como atender e batem o telefone na cara do paciente? É... Pensando bem, não foi não, né? Mas mesmo sabendo disso, chamamos os médicos que chegaram de Cuba de “empregados domésticos”, como fosse isso uma ofensa. O respeito que a gente precisa ter com um diplomado, como um médico, por exemplo, vai por água abaixo neste caso.

Sabe igual os americanos fazem quando lançam um episódio dos Simpsons comparando os brasileiros com macacos e a gente dá risada? Então! Mais ou menos isso. Só que ao invés de macacos, a gente comparou mesmo com outros seres humanos, hostilizados simplesmente por terem a profissão que mais sofre preconceito no país. E a gente ainda achou legal ver alguns deles serem impedidos até de se locomover por causa das manifestações. Manifestações essas, que só lembrando, nunca fizemos em nome dessas pessoas dos interiores. Nunca antes na história, no pleonasmo mesmo.

Só que não é legal. Não é legal também que o governo prefira chamar gente de fora ao invés de construir hospitais e clínicas melhores nestas regiões, até mesmo para estimular os médicos? Não! Não mesmo! O governo deveria estar trabalhando para que esses lugares tenham melhores condições. Mas nós sabemos o governo que temos, porque fomos nós quem colocou-o lá. E infelizmente, o fato de nosso governo ser sujo e corrupto não serve como um passe de mágica para essas pessoas que estão nas regiões distantes, morrendo sem atendimentos.

É mais ou menos como o bolsa-família. Não ensina a pescar. Ensina a comer o peixe apenas. Verdade. Deveria estar atrelado com um enorme programa de capacitação. Só ganha se comparecer ao ensino técnico, por exemplo. E por aí vai. Mas JÁ tem gente morrendo de fome. E com esses? Fazemos o quê? Não podemos culpar as ações emergenciais pela falta de demais iniciativas do governo à longo prazo. O que devemos fazer talvez é focar em exigir as medidas secundárias. Mas mesmo que em algum ponto nós discordemos, ainda assim, nada justificaria a vergonha que passamos com as reações que muitos de nós tivemos à chegada dos médicos.

Porque sinceramente, a vergonha maior já nem é mais o que estamos falando. Mas sim, perceber que por bem ou mal (cada um pensa o que quiser), eles estão mostrando uma capacidade que nós não temos: exercer por amor. Exercer pelo social. Pensar no coletivo. Se eles são obrigados a fazer isso (o que eu não consigo entender bem como funcionaria), eu não sei. Se eles crescem com essa idéia enfiada na cabeça como fosse a melhor coisa do mundo, também não sei. Mas honestamente, neste caso, os resultados de uma outra sociedade não estão me parecendo assim tão maus. E olhando por esse lado, cá entre nós, quem é que está precisando de um remédio?

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Dannie Karam tem cinco nomes enormes, mas espalha seus textos com um e meio. Já estudou em dezesseis escolas, morou em quase dez cidades, e já rasgou mais de trezentas poesias. Transita entre oito e oitenta, mas só costuma bater o pé por uma ou duas coisas. Criou com três amigas o Pipoca, Pimenta e Poesia. Vive mergulhada em milhares de folhas amassadas e acha que nasceu pra letras. Odeia esse negócio de números... E aceita assinantes em sua página do facebook

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